terça-feira, 22 de abril de 2008

O PROBLEMA está exactamente aqui: "não consigo que os alunos atinjam os objectivos traçados no início de cada ano". E era este problema que devia preocupar também os pais e o ministério, porque é esta a questão com que os professores mais se debatem nas aulas, nas conversas entre colegas, nos pátios, nas salas de professores.
O ministério decidiu atacar com a avaliação dos professores julgando que era a solução para melhorar as taxas de sucesso e de abandono escolar. Como se tudo fosse uma questão de números!
Ora eu acho que mesmo que se falseiem os resultados, mesmo que haja facilitismos, mesmo que no final dos mandatos, os governantes venham dizer à boca cheia que conseguiram diminuir o abandono e aumentar o sucesso, pintando um quadro maravilhoso, para serem reeleitos, tudo não passará de uma farsa, porque este problema terá que ser resolvido de outra maneira.
E é urgente começar a ter consciência que as coisas estão muito diferentes de ontem.
O problema está mesmo nos alunos de hoje! E como a escola é feita para eles, tem que se estudar melhor os seus RECEPTORES. Algo terá que mudar.
E nessa mudança terão que participar as partes envolvidas.
E não será também, uma mudança para hoje, embora infelizmente, os governos gostem de semear e colher durante o mesmo mandato.
As pessoas, os governos, têm que se consciencializar que não se constrói uma escola nova por decreto, que cai de cada vez que muda um governo. As coisas têm que dar os seus frutos no tempo certo, mesmo que sejam já outros a colhê-los. E isso é o que é mais difícil – trabalhar para amanhã!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Os alunos não aprendem e a culpa é dos professores que não sabem ensinar??!!!
Esse foi o lema durante o meu estágio feito há mais de 20 anos!
Durante uma aula assistida, um aluno perguntou-me que horas eram, e aqui d’el-rei que o menino estava enfastiado! Para bem dos meus pecados ainda tinha 27 alunos interessados na aula, que me valeram para “abafar o incidente”!
Como “o professor é um actor”, fazia-se o pino, entoavam-se as palavras, passeava-se pela sala organizada em grupos de mesas, gesticulava-se, levavam-se resmas de imagens, bonecos, retroprojector, diapositivos… cada aluno era um mundo e o professor tinha que se desdobrar por 28 / 30 pequenos mundos por hora…
Não interessava muito o produto final, mas sim os processos, os percursos que cada aluno percorria durante o ano lectivo.
Trabalho de Projecto; trabalho em grupo; pedagogia Freinet; nada de autoridades; muita motivação; as aquisições não são obtidas pelo estudo de regras e leis, mas sim pela experiência; o fracasso inibe, destrói o ânimo e o entusiasmo… enfim tudo era motivador.
Cada Unidade de Trabalho começava sempre por “sensibilização dos alunos ao problema de…”
E os alunos ficavam sensibilizados.
Resultou? Sim resultou. Durante muitos anos este tipo de pedagogia resultou nas minhas aulas e nas dos meus colegas. Os alunos respondiam aos desafios, experimentavam, eram curiosos, interessados e aprendiam.
E agora? Como é agora?
Se na pedagogia Freinet tudo era centrado nos interesses das crianças, porque é que agora não resulta? Quais são afinal os interesses das crianças e dos adolescentes de hoje?
Passou quase um século, desde Freinet…
Agora os interesses mudam todos os dias. Mudam muito mais depressa do que antigamente. Mudam dois dias antes de se pôr em prática a melhor pedagogia, a melhor metodologia, as melhores estratégias…
Ah! O zapping! Agora está na moda o zapping!
Hoje gosta-se disto, amanhã gosta-se daquilo. Não presta, deita-se fora, troca-se, compra-se novo, desfaz-se, muda-se de emprego, de casa, de canal de TV, de marido, de mulher, de amigos… tudo ao alcance de um click!
Estamos na era do zapping, do imediatismo, do facilitismo, “do quero ter já e depois logo se vê”!
As novas tecnologias, os novos sistemas de comunicação, entram-nos pelos olhos, pelos ouvidos, pela nossa casa dentro, todos os dias e a toda a hora. E não é mau. Usamo-las. Já não dispensamos o nosso ipod, a Tv, o PC, o telemóvel, o pocket PC, o iphone, a PSP, a pendrive… e tantos outros gadgets que nos inundam o dia a dia.
E de repente, toca para a aula e entram-nos 20/30 alunos por uma porta que se sentam em frente de um quadro negro (ou verde), virados para uma criatura que os proíbe de utilizar os Mp3 e os telemóveis, e lhes pede que estejam sentados a conjugar os verbos, a fazer equações, a ouvir contar os descobrimentos…
E eles que já nascem com a cabeça levantada, que com menos de um ano de idade percorrem os corredores dos hipermercados em alcofas e cadeirinhas penduradas nos carrinhos de compras, “a levar” com outdoors, cartazes, luzes, sons …
Eles que desconhecem o que quer dizer “concentração”, porque já nascem com “concentração dispersa”, eles que conseguem estar atentos a 4 ou 5 coisas ao mesmo tempo, eles que já nascem hiperactivos, têm que permanecer sentados numa sala de aula a aprender matérias que não percebem bem “para quê?”
Para quê ler, se viajam mais e melhor através da Net?
Para quê memorizar aquela quantidade de nomes ou a tabuada, se pode estar ao alcance de um click? Para quê?
Hoje já não “disfarço” os conteúdos como antigamente fazia. Eles não gostam. Acham que é tratá-los como atrasados mentais. E têm razão. Para quê projectar “a caixinha” na aula de Matemática, que é construída em Ed. Tecnológica, é pintada na aula de Ed. Visual, é cantada em Ed. Musical, é escrita no Português, traduzida em Inglês e reciclada em Ciências Naturais?
Dar “a seco” os conteúdos, porque afinal assim eles “sabem” o que estão a aprender.
Também já há salas repletas de computadores, onde os alunos se atiram vorazmente a cada PC, surfando indiscriminadamente na Net ou utilizando o MSN e outros programas do género, onde costumam passar horas a conversar com os próprios vizinhos do lado…
Já não conversam muito entre eles. Falam teclês na Internet, por SMS…
Afinal o que é que querem?
Quais são os seus interesses?
Porque é que as famílias os depositam nas escolas onde sabem estarem seguros?
Porque é que ao mesmo tempo certos pais desvalorizam a escola?
Porque é que os alunos não aprendem?
O que é que afinal quereriam aprender? Ou deveriam aprender?
Porque estão cada vez mais agressivos, mais violentos?
Porque é que os pais não os educam?
Porque é que os profs têm que “tomar conta deles” mesmo depois das aulas?
Porque é que muitos têm famílias desestruturadas e por isso mesmo gostam cada vez mais da escola, do recreio da escola?
Porque é que os profs têm que competir com a televisão, os MP3, os computadores…. etc?
Porque é que já não conseguimos sensibiliza-los para nada?
Porque é que já não se encantam com um bom livro que a professora lhes mostrou? Uma imagem? Uma exposição? Um filme? Uma aula que levou horas a preparar?
Afinal temos que competir com os gadgets que eles trazem no bolso?!!
E afinal para que é que todos temos o telemóvel no bolso, se temos que o ter desligado?
E se o meu filho precisa de mim e telefona? E a minha mãe, que está doente e sozinha?
E porque é que não posso ouvir música ao mesmo tempo que o prof. fala, se lá em casa todos trabalham no PC, com a TV ligada, o CD a tocar, os miúdos a gritarem….?
A comunicação mudou.
A comunicação mudou?
“As matérias são uma seca. A professora é uma seca”, diz um dos meus filhos lá em casa.
Temos que pensar o que é que queremos. Não para amanhã, mas o que queremos para daqui a 10, 20 anos.
Temos que reflectir sobre muita coisa.
Temos que reformar muitas coisas.
Temos que nos actualizar.
Temos que aprender outras pedagogias.
Temos que ouvir os adolescentes de hoje.
Temos que ser ajudados.
Temos que nos entre ajudar.
Temos que nos equipar.
Temos que experimentar outras coisas.
Temos que “inventar” novas aulas, novas salas de aula.
Temos que nos adaptar aos novos alunos, às novas famílias, às novas profissões, aos audiovisuais, às novas formas de comunicação, até ao zapping!
Temos que aprender novas maneiras de ensinar.
Temos que aprender novas maneiras de aprender.
Mas, de repente, cai-nos um país em cima que diz que está tudo mal e que a culpa é nossa e por isso temos que ser castigados!
Também somos pais, que diabo!
Acabo de ver na Internet o tal vídeo da aluna aos gritos e puxões à professora, só porque esta lhe retirou o telemóvel enquanto decorria a aula. Uma turma inteira a faltar ao respeito a uma professora, que tenta desesperadamente fazer o seu papel, que com certeza já desempenha há muitos anos. Reparo agora que não é só este, mas centenas deste género de vídeos, que mostram cenas em salas de aula onde se passa tudo, menos ouvir o professor! São escolas em Portugal, em Inglaterra, no Brasil e pelos 4 cantos do mundo. É só pesquisar no youtube. Mas afinal o que é que se está a passar?! De repente todos os professores perderam a autoridade na sala de aula?! E os valores? Ainda são os mesmos valores que perduram? Respeito é sempre respeito. Falta de respeito há 20 anos é a mesma falta de respeito hoje?
Aqui em Portugal, de há 3 anos para cá, tem sido lamentável que alguns políticos tenham vindo a denegrir a imagem dos professores. Nos outros países não sei.
Será que a culpa é dos telemóveis?
São verdadeiros génios os professores que conseguem manter a disciplina e o interesse dos alunos (uma turma inteira – 28 alunos) numa sala de aula durante um dia!
Perguntemos aos pais de hoje se conseguem manter os vossos filhos quietos e sentados à mesma mesa a conversar? Quanto tempo dura o vosso jantar lá em casa? No meu tempo era a hora sagrada em que estávamos com os nossos pais a conversar à mesa.
São os vossos próprios filhos – devem conhecer-lhes os interesses, caramba! Quanto tempo conseguem estar à conversa com eles, ou a ensinar-lhes qualquer coisa? Nem que seja só as boas maneiras? Quanto tempo conseguem prender a atenção dos vossos filhos adolescentes?
É que eu já tenho dificuldade em fazer isso mesmo com os meus próprios filhos!
Então, percebam o que é que se pode conseguir sem equipamento nenhum. Só com uma sala cheia de mesas e cadeiras, um quadro negro de giz… e 28 pessoas diferentes.
E se cada um estiver em frente do seu computador? Qual é o papel do professor? Qual é a importância do professor? Mesmo que se condicione o acesso a áreas ou a sites que saem dos conteúdos da aula? Voltamos à mesma questão – como orientar e dirigir o interesse, a atenção e a concentração dos alunos?
Entretanto proliferam livros e documentários sobre pequenos jovens ditadores e pais que pedem ajuda… O que é que se passa afinal?! Os pais estão a demitir-se e pede-se também à escola que os substituam?
São tantas as questões que gostava de ver debatidas, analisadas, reflectidas em conjunto com pais, professores, alunos, governantes…
Claro que queremos ser avaliados. Claro que temos sido avaliados. Há listas de graduação a nível nacional. Estágios, formação anual, antiguidade… más condições e péssimos salários, agora congelados…
Para quando as Reformas a sério?
Uma coisa eu tenho a certeza, não se conseguirá nada sem o envolvimento de todos.
Sou mãe de 3 filhos e professora há 27 anos. Nunca tive problemas de indisciplina nas minhas aulas, mas tem-me saído do pêlo e do tempo que retiro à minha própria família, dedicando-me à escola a tempo inteiro, mas até quando?
Os alunos que me aparecem nas aulas são cada vez mais problemáticos. O seu desinteresse, a falta de empenho e de trabalho crescem avassaladoramente. As forças vão-me faltando e os resultados são cada vez menos positivos. E não, não estou a falar dos resultados do aproveitamento, mas dos resultados das estratégias que utilizamos para ganhar o interesse dos alunos. Esses são para mim os mais importantes, porque os outros decorrem naturalmente dos primeiros.
São os programas, as matérias, os fracos recursos de que dispomos, a própria estrutura em que se sucedem as aulas, as vidas familiares turbulentas e desequilibradas, a grande disparidade entre a vida lá fora e o comportamento que se pretende numa sala de aula, que provocam este desinteresse nos alunos de hoje.
Mudar? Sim. Mas como? Para onde? De que maneira?
Pensar uma escola a longo prazo e no que queremos destes cidadãos daqui a 20 anos, parece-me ser o caminho mais certo. Não interessam reformas para hoje, nem para eleições. Não é só encher as escolas de computadores, se não se souber para que os queremos ou como usá-los.
A tecnologia avançou largamente estes últimos 20 anos. E a educação? A escola? É por decreto que se faz a escola do século XXI? São os professores os culpados por todo este estado de sítio?!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Life Is A Miracle

Emir Kusturica, que tive a sorte de ver no nosso Coliseu.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

terça-feira, 22 de janeiro de 2008
































Mariana - fotogramas

terça-feira, 11 de dezembro de 2007













A ILHA
J. Afra 2001

volumes, espaços, subjectividade
ou alguns tópicos para uma estética do vazio



Sempre tive uma enorme predilecção pelos grandes espaços abertos e devo confessar que a minha relação escultórica com o volume nunca foi muito pacífica pelo que, a maioria das vezes e por dever de ofício, não passamos de uma situação de compromisso nem sempre satisfatória para ambas as partes. Nunca aprofundei convenientemente as razões, mas tenho para mim que tendo nascido e vivido durante muitos anos frente ao mar, e a poder olhá-lo até à linha do horizonte, talvez que esse facto possa, de algum modo, ter contribuído para uma espécie de claustrofobia mental que os volumes me causam.
Ao longo do tempo, tenho desenvolvido um certo trabalho de auto-persuasão: os volumes são também porções de espaço tridimensional, preenchidos por determinadas matérias que configuram as formas e se recortam, por sua vez, noutros espaços envolventes. Os volumes serão, por assim dizer, quantificações qualificadas do espaço visual, ou por nós percepcionados como tal. Mas em vão!
Encontrei então outra maneira de contornar o problema através do fascínio pelos materiais: as suas características tácteis, a riqueza das texturas, as cores, a plasticidade, a dureza e até a temperatura natural de cada um deles, mas sobretudo o prazer de os trabalhar. Como vivi muito tempo, em criança, no meio de pedreiros, descobri mais tarde, um decisivo pendor para as argamassas. Misturar o cimento e a areia nas devidas proporções, acrescentar de água q.b., amassar e em seguida - supremo gozo - de colher e talocha em punho, repetir como num ritual sagrado aqueles gestos que eu vi fazer, há muitos anos, aos pedreiros que conheci. Distribuir e afagar a massa, ora em gestos precisos e decididos, ora tacteantes e sensuais, ali estou eu, em silêncio, compenetrado da minha condição de simples elo duma cadeia que se perde no tempo e na distância.
Acabada a tarefa quebra-se o encanto, desfaz-se a emoção e...lá estão eles, os volumes! No entanto uma coisa eu aprendi: mais importante do que aquilo que se faz é a intenção com que se faz.
A única defesa é tentar esquecer os volumes, esses artifícios escultóricos, fazer de conta que não existem, ultrapassá-los, mas aí me volta de novo a tendência para os espaços "livres", conceptuais, abertos à fruição do ser o que, nos tempos que vão correndo, representa se não um perigo, pelo menos uma visão desajustada das realidades actuais.
A crescente hegemonia dos espaços económicos, a instauração do consumo de massas, a democracia hedonista e a exaltação do individualismo que caracterizam grande parte das sociedades do nosso tempo, determinam a necessidade de demarcar territórios, de estabelecer a destrinça entre o meu e o teu ou o nosso e o deles, através das mais variadas exibições do ter: o carro, o vestuário, o local onde se vive, os adornos da casa, com quem se anda, o que se frequenta, etc. Os objectos de arte são também marcas caracterizantes desse espaço-outro; são expoentes de mais valia e inequívocos sinais de qualificada personalização.
Passados que foram os tempos das vanguardas do modernismo, baseadas na ruptura com a tradição e no culto da novidade e da mudança, com a sua contraditória autofagia criadora, seguiu-se esta outra fase, não menos contraditória, de uma criatividade vazia e repetitiva, já sem nada para negar, mais voltada para as necessidades do mercado, e cuja originalidade dita "pós-modernista", simbiose dos "cacos" das várias épocas, é artificialmente alimentada pelos mecanismos do respectivo espaço económico.
É bem verdade que os nossos conceitos de espaço acabam por determinar, em cada um de nós, a nossa verdadeira dimensão.
Aqui há tempos, um autarca em vésperas de eleições, veio ter comigo e disse-me assim:
- Gostava que pensasse, lá para a minha terra, num monumento à Democracia. - e eu lá fui à terra dele ver o local previsto, como se impunha.
Deparei com um pequeno largo, parcialmente ajardinado, cheio de sol, despido de árvores mas simpático e acolhedor. No relvado, uma mesa, umas cadeiras de ferro e meia dúzia de idosos que jogavam as cartas, enquanto umas tantas crianças andavam por ali aos pulos.
Foi uma semana de angústia. Agora que eu tinha finalmente encontrado a solução para a minha crise existencial, que me dispunha a encetar a cruzada da minha vida, que me iria dar fama e glória, através desta coisa muito simples que seria varrer os espaços, libertá-los dos negregados volumes supérfluos, modelar-lhes de novo o perímetro, esculpir-lhes o chão, organizar-lhes a luz, determinar as sombras e prever a funções, eis senão quando ma vejo alienado à Democracia, por mais respeitável que ela seja. Faço, não faço, eis a questão. Ao fim de oito dias o homem telefona-me:
- Então, já tem uma solução para me dar?
Enchi-me de coragem, tomei o ar dos grandes momentos - que ele não viu... - e declarei secamente:
- Vamos plantar uma árvore!
Como ele nunca mais falasse, tomei eu a iniciativa de lhe lembrar que uma árvore é um ser vivo, como viva deve ser a Democracia, mas que nos primeiros tempos é frágil, precisa de cuidados, de ser alimentada e regada para que se fortaleça e frutifique. Alem do mais, ela irá dar sombra aos velhinhos dos jogos de cartas e os cuidados na sua manutenção será uma lição viva para as criancinhas.
O homem despediu-se à pressa e há tempos, quando ali passei, lá estava a Democracia em pedra, a encher o espaço e, à cautela, rodeada de grades. Dos velhos e das crianças nem rasto.
Começava eu a recompor-me do insucesso da minha nova e ecológica concepção de espaço plástico quando há dias recebi uma carta de uma empresa turística do Algarve, dando-me conta de um novo empreendimento, nos jardins do qual está previsto figurarem grupos de crianças nas suas brincadeiras habituais. Querem saber se estarei interessado em fornece-las em tamanho natural mas em bronze e em atitudes semelhantes a umas fotografias que enviaram junto.
A princípio achei a ideia perversa mas pensei depois que não tenho que achar coisa nenhuma mas sim tentar compreender os significados das coisas e que não têm, necessariamente, que coincidir com os meus. Habituado a associar os jardins à ideia de espaços adequados, entre outras coisas, às brincadeiras das crianças e aos seus jogos infantis, nunca me ocorreu a ideia que os gaiatos pudessem ser substituídos por simples réplicas em bronze o que, pensando melhor, não deixa de fazer sentido.
O fenómeno pode ser observado, sobretudo e por enquanto, nos grandes meios urbanos: é hoje um perigo deixar que as crianças brinquem nos jardins e muito menos na rua, onde ficam sujeitos aos atropelamentos e à violência, alem dos maus exemplos, dos abusos e perigos de toda a ordem que os espreitam. Já agora direi também que tão pouco as nossas casas são o lugar ideal para as suas brincadeiras: as habitações são pequenas, atulhadas de móveis, e não podemos deixar que risquem o chão envernizado, partam a mesa de vidro, estraguem o tapete persa ou reduzam a cacos o jarrão da avó. Acrescentemos a este cenário o facto da maioria dos pais trabalharem fora de casa, a dificuldade de contratar pessoal doméstico, e as tias solteironas e desocupadas serem hoje uma espécie praticamente extinta, resta-nos meter as crianças em “gavetas” apropriadas e, se possível, ao alcance de todas as bolsas: os infantários, as creches, os jardins-escolas, etc.
Mas isto pode ser apenas um prenúncio se levarmos mais longe as nossas considerações. Também nós, os adultos, começamos a estar sujeitos aos mesmos perigos: o aumento da criminalidade, a assustadora violência nos estádios e noutros locais de diversão e lazer, os riscos da condução automóvel, os assaltos, o terrorismo, os atentados e as violações, para não falar já das poluíções de toda a ordem, do desconforto das ruas esburacadas, dos automóveis estacionados, dos andaimes e tapumes, do excesso de pessoas nos passeios, nos restaurantes, nas esplanadas, nos espectáculos e em tudo quanto é sítio.
Noutra perspectiva, porém, os poderosos meios que estão já hoje ao nosso alcance, os multimedia que irão originar as tão anunciadas «auto-estradas da comunicação», irão ter certamente um papel determinante e inversor desta situação. Há hoje muita gente que evita deslocar-se e prefere assistir comodamente, através da televisão, não só ao desenrolar dos acontecimentos mas participando deles, colhendo informações, deixando-se seduzir por este ou aquele produto. - «Não saia do seu lugar!» - é uma frase que se ouve com frequência e cada vez mais assim irá ser. "Consumir" sem sair de casa começa a ser uma realidade: dentro em breve, através do computador, teremos acesso ao mostruário do hiper-mercado, da boutique, da loja de móveis ou do alfaiate; comparar preços, escolher o modelo, assegurar-se da qualidade, pagar com o cartão e receber em casa a mercadoria.
É a "realidade virtual", o convívio sem distâncias, sem horários, sem deslocações; é a discoteca, é o emprego, é o mundo em cada casa, uma "nova dimensão" que se abre à curiosidade e aos interesses selectivos de cada qual, e se pode desfrutar entrincheirado num pequeno habitáculo, sem os perigos e as incomodidades duma "realidade" milenária onde até agora temos vivido.
Metidos também os velhos nas "gavetas" – que são os lares da 3.ª idade -, começa assim a fazer sentido, que os solitários espaços ajardinados, as sedes imponentes e vazias das grandes empresas, e dois ou três cafés mais castiços e igualmente às moscas, venham a constituir os primeiros exemplares dos espaços museológicos do século XXI, com os tais meninos de bronze saltando à corda, tal como o Cauteleiro oferecendo a "sorte grande" no Largo da Misericórdia ou o Fernando Pessoa bebendo café na esplanada do Chiado.
Recuso-me a colaborar!
Alguém já disse que «o homem tende para o infinito» e nessa caminhada, liberto das limitações dos sentidos, prefiro então conceptualizar o Espaço, não já de uma forma fraccionada e restrita, mas no seu todo essencial e absoluto, entidade primeira, fulcro vital de todo o acontecimento.



João Afra
2 Março 95

domingo, 25 de novembro de 2007



João Afra

"Um retrato para Fernando Pessoa - quadros e quadras"
in painel colectivo comemorativo dos 111 anos do nascimento do poeta
Dez. 1999



SE... TALVEZ... OXALÁ...

As histórias dos "SE,s" começam cedo. Geralmente quando julgamos ter ainda à nossa frente muitos anos para viver.
(…)
É então que, sem bem nos darmos conta, ficámos de novo sós, e esgotados os nossos desejos primordiais, a vida transformou-se, pouco a pouco, numa peregrinação rotineira. Cíclica deambulação pelas marcas dos nossos passados sonhos, transformados agora em definitivas realidades. O ónus da idade, acaba por diluir as fortalezas da esperança consubstanciadas nos "SE" para dar lugar aos "TALVEZ", que é outra maneira mais débil de ter esperança: Talvez pudéssemos agora viajar um pouco. Talvez ao Brasil... Talvez fosse a altura de mudar de carro. Talvez ir até à Quinta no próximo mês... Talvez possas melhorar até lá...
À medida que os incertos desejos se vão dissipando no tempo, concretizados uns, outros nem tanto, adiados num talvez cada vez mais difuso e nebuloso, deparamos, pouco a pouco, com um mar de serenidade selectiva e confiante, até que a vida não seja mais do que um único, enorme e definitivo desejo dum feliz retorno à Origem de todos os seres.
Já esquecidos então, na bruma do tempo, os se's e os talvez, resta esse imenso mar de esperança onde vogamos confiantes, a bordo de um simples Oxalá.

J. Afra
Agosto de 2002

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto...
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios
e ribeiros
e pessoas
e lugares...
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
È alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.


Alves Redol

terça-feira, 31 de julho de 2007


uma reverência à simplicidade e ao essencial


na cozinha uma festa,
uma animação de paladares

sábado, 14 de julho de 2007




hoje comprei 20 peixinhos. fiquei uma hora a vê-los, vermelhos, sarapintados de branco, de preto...
um todo prateado... às voltas num balde amarelo.

lindos os meus peixinhos.
deitei-os no lago e nunca mais os vi!
se não aparecer nenhum a boiar é porque estão contentes.



quinta-feira, 12 de julho de 2007

pôr parafuso na torneira
vaso para orquídea
4 almofadas brancas
lençóis de verão
apertar óculos de ler e escuros
dicionário
filtro para frigorífico
mandar arranjar alarme
técnico de lagos
arranjar telemóvel F
comprar telemóvel A
água 1,5 para M
geleira
comprimidos dieta
pouf quarto F
fotografia dos netos para os avós
fazer PCT
relatório DT
relatório crítico e-learning
organizar armários sala aula
desmontar exposição
arrumar arrecadação
embalar coisas para a mudança
transplantar as physalis
passar videos para DVD
pintar as peças cerâmicas
organizar fotog de reciclados
mala de papel
pintar as bobines
pintar a palete
fazer almofadão
telefonar à TP
responder ao T
arrumar
arrumar
arrumar

perco-me no meio de tantas listas, compras, afazeres... uns mais agradáveis que outros...

hoje fui ao talho e acabámos a falar na Second Life enquanto o homem me cortava os bifes.

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

António Gedeão

quarta-feira, 11 de julho de 2007

o colar